Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Ivan Junqueira e a amplitude de Rita











Em carta destinada ao escritor Rinaldo de Fernandes, Ivan Junqueira, membro da Academia Brasileira de Letras, resumiu em palavras certeiras a experiência de ler a obra Rita no Pomar.

Relata Ivan: “Rita no Pomar é uma curiosa mistura de transgressão e lirismo na análise da sempre dolorosa condição humana, o que torna o romance um testemunho emocionado e perturbador da solidão contemporânea”.

Os comentários de Ivan vão ao encontro da minha resenha do livro: “Rita no Pomar : um romance para nossos tempos” . No texto, arrisco ter encontrado no livro elementos que captam muito bem o mundo contemporâneo. Ao trocar a cidade grande por um cenário deserto e paradisíaco, Rita não consegue deixar de espelhar o mundo moderno (ou pós-moderno).

Mesmo sozinha, ela gera um fluxo de informações não lineares, em escritos e conversas com o seu cachorro (o qual se transforma em interlocutor para suprir o desejo de comunicação da dona).

Para entender o universo de Rita, ou ao menos partilhar dele, o leitor acaba se alimentando, como o próprio Pet, das “migalhas” deixadas ao longo das páginas.

Nesse trajeto, há a beleza das descobertas e uma espécie de incômodo típico de quem ouve as confissões de um estranho e por algum motivo não consegue se desviar dele. Essa cumplicidade que temos com a personagem foi, até certo ponto, elucidada por Ivan Junqueira: Rita reflete a nossa própria solidão.

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Luzes










Por Eduardo Sabino

Ameaçam o tombo os prédios pendurados no céu. A cabeça pressionada na lataria almofadada. É um mundo bonito daquele ângulo. Dezenas de luzes acesas já são festa para os olhos mais bobos (o que diriam os insones se soubessem que fazem alguém sonhar?). Por um instante nem sabe quem é, onde está, e sorri. Logo ouve o respirar ofegante, marcando a música eletrônica.

Preparou-se durante a semana. O salão de beleza, as compras, o vestido nem um milímetro sequer afastado da moda. Embaralha a memória: a marca da loja, as bolsas de couro, o ar condicionado, pessoas em peregrinação por entre vitrines.

Deitada em um banco de couro, sente a umidade do líquido no dorso. Quase foi aos prantos quando, em meio às gargalhadas e gestos bruscos, o copo de vinho se inclinou. Agora a mancha não importa. Quer voltar para os pontos cintilantes no tapete negro, lugares onde nunca esteve ( mas o carro continua no trajeto familiar).

Ergue a cabeça, meio zonza, e vê a estrada deserta. Não tarda a surgir o letreiro luminoso, o truque de uma semana agitada.

“Pare o carro”.

A resposta vem arrastada:

“Quê isso gatinha, tá maluca?”

Mão na perna, chute de tamanco, puxão no pino da porta. Salta e trepida, um pé calçado, outro não.

O carro, às súplicas, acompanhará a garota certo tempo, até que dele fique apenas um rastro de palavras sujas.


Sábado, 20 de Junho de 2009

Com o muro na cabeça










Por Paulo Lima


O historiador Klaus-Dietmar Henke costuma se referir à queda do muro de Berlim como uma “revolução pacífica”, a única bem sucedida na história da Alemanha. “Os alemães orientais acrescentaram à história de nosso país um de seus momentos mais esplêndidos, uma contribuição à nossa maneira bastante conturbada de encontrar e aceitar as liberdades individual e política como valores de suma importância”, ele afirmou.

A reflexão está citada no livro Stasilândia , da jornalista australiana Anna Funder. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras, na série “jornalismo literário”, o livro mostra como funcionava a Stasi, a temida polícia secreta da ex-Alemanha Oriental. A Stasi controlava a vida dos cidadãos com uma precisão cirúrgica. Seus números superam sistemas de vigilância como a Gestapo de Hitler e a KGB soviética. A Stasi tinha à sua disposição 97 mil funcionários e 173 mil informantes, para controlar uma população de 17 milhões de pessoas. No varejo, de cada seis habitantes da ex-Alemanha Oriental, um era informante da Stasi.

Anna Funder contou essa história sob a perspectiva dos dramas de seus personagens, gente que sentiu na própria pele a tirania do totalitarismo, e é esse mergulho que humaniza sua narrativa e a torna tão emocionante. Quando Anna Funder começou sua reportagem, no inverno de 1996, a “revolução pacífica” de 1989 já era uma página do passado, mas mesmo assim as marcas do antigo regime ainda estavam por toda parte. “A Alemanha Oriental desapareceu, mas seus restos ainda estão lá”, ela escreveu.

A idea do livro surgiu a partir de uma carta que Anna Funder recebeu enquanto trabalhava no serviço internacional de uma emissora de TV, no lado que já foi chamado de Berlim Ocidental. Na carta, um alemão residente na Argentina sugeria matérias em que os próprios ex-alemães orientais contassem suas histórias. Naquele momento estava em curso um esforço de reunificação entre os ossis (os alemães do lado oriental, pobres e atrasados) e os wessis (os alemães do lado ocidental, capitalistas e ricos), separados durante décadas pelo muro. Anna abraçou a ideia e a ela se lançou com entusiasmo.

Os dramas que preenchem sua narrativa são tão fantásticos que beiram o inverossímil. Seguindo a tradição dos melhores repórteres, Anna Funder gastou muita sola de sapato para desencavar sua história, movendo-se por um cenário ainda assombrado pelos fantasmas da Stasi. Mudou-se para um apartamento na ex-Berlim oriental. Conversou com vítimas e algozes. Uma dessas vítimas é Frau Paul, e seu relato talvez seja o mais forte de todo o livro, um emblema de como o muro dividiu e destruiu vidas.

Em janeiro de 1961, Frau Paul deu à luz um menino, que em seguida apresentou problemas de saúde. Torsten Rührdanz foi internado e passou a necessitar de remédios especiais que Frau Paul obtinha do outro lado da fronteira, ainda não dividida pelo muro, mas sob controle. Na noite de 12 para 13 de agosto, o muro foi erguido e Frau Paul se viu impedida de ir buscar os medicamentos. Sem eles, Torsten Rührdanz piorou e foi transferido para um hospital do lado ocidental, sem que Frau Paul e o marido tomassem conhecimento.

Personagens marcantes e suas histórias incríveis é o que não faltam no livro. O toque literário da narrativa nos permite atravessar suas quase 400 páginas sem esforço. Algumas experiências parecem ter sido extraídas de um desses melodramas de Hollywood povoados por temíveis tiranos da ex-Cortina de Ferro. É o caso de Miriam, que aos 16 anos, em companhia de uma amiga, resolveu escrever e distribuir panfletos contra o regime de Erich Honecker. A peraltice custou caro. Foram descobertas e postas numa solitária durante um mês. Depois de libertadas, ficaram aguardando julgamento. Miriam decidiu fugir e pular o muro. Sem qualquer plano, viajou sozinha de Leipzig a Berlim, e só não atingiu seu objetivo por ter esbarrado num fio de arame que disparou um alarme, a centímetros da liberdade.

Frau Paul, Miriam e todos os que confiaram seus segredos a Anna Funder o fizeram ainda sob intensa emoção, como se os fatos longínquos representassem o presente. Era a Stasi ainda em ação, mesmo decorridos vários anos da derrubada do muro. Mit die mauer im kopf é a frase que os alemães criaram para manifestar essa sensação de aprisionamento. Essas pessoas viviam “com o muro na cabeça”. Anna Funder entrevistou ex-membros da Stasi, e todos ainda mantinham as mesmas convicções. No cenário de desemprego que se estabeleceu na ex-Alemanha Oriental após a queda do muro, muitos desses funcionários não tiveram dificuldade em encontrar trabalho.

Em 2000, Anna Funder retornou a Berlim e tentou reencontrar alguns de seus personagens. Sentada num banco de praça, perto do prédio onde estava morando, ela conversa com alguns desocupados que perambulavam por ali. Havia nessas pessoas um clima de saudosismo quanto aos velhos tempos. O capitalismo, para o qual jamais estiveram preparados, estava mudando a vida de todos. E para pior, segundo eles. Para os jovens, é como se nada daquilo tivesse existido. Anna Funder os observa. Eles se beijam e passeiam em suas bicicletas sob o brilho de um sol forte, numa manhã berlinense.

***

Há no You Tube uma reportagem sobre Anna Funder e seu livro Stasilândia, que pode ser vista clicando aqui. Num momento do vídeo Anna Funder faz uma visita a Frau Paul. Frau Paul aparece ainda conduzindo um grupo de turistas por uma das prisões da Stasi.

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Dias










Por Eduardo Sabino

Alguns dias são crianças,
sonhavam em viver.

Outros são poetas,
esqueceram de morrer.

O tempo é assento de Deus.

O tempo é acento no início.

Inclinado precipício.
De onde se jogam,

Os imortais.

Educação não é mercadoria: por um olhar menos superficial(1ª parte)










Por Eduardo Sabino

Antes de tudo, quero negar a neutralidade jornalística, os sujeitos indeterminados da academia, assumindo, desde já, a primeira pessoa do discurso para dizer: não acredito que a educação é tratada como mercadoria nestes tempos pós-modernos.

Ainda que eu não escape das pedras do movimento estudantil da atualidade (e ele existe sim, embora um tanto quanto perdido), não negarei a afirmação. Ao contrário, peço calma ao leitor mais exaltado para que sejam apresentadas as razões de uma afirmação tão conservadora (ou liberal).

O objetivo aqui não é esgotar um assunto, mas o iniciar. As melhores introduções de assuntos na história do pensamento, Marx provou, são as alfinetadas.

Não nego a complexidade do termo. O pensamento marxista mostrou as sutilezas desta coisa aparentemente trivial, mas enganadora: a tal mercadoria. Não discordo: ao longo do tempo, enquanto nós a produzíamos, ela também foi produzindo o mundo à sua imagem e semelhança.

No mundo pós-moderno, o fetiche é universal. Tudo parece ter as rugas de expressão da mercadoria (e tem). É difícil encontrar algo que não possa ser esgotado do seu valor de uso para servir ao mercado.

As coisas precisam renovar-se para atender a uma produção acelerada, projetada para o infinito. As modas, os relacionamentos, as “tribos subversivas”, nada escapa à máquina do consumo.

Por isso, classificar a educação como mercadoria é muito fácil. Mais complicado é dizer o que não o é. É preciso entender, no entanto, o meio onde se dá a mercantilização das coisas e buscar outras maneiras de ver o processo. Por meio dessa ótica, reforço, a educação é mais do que uma mercadoria.

Impressões da visita à Rainha Morena (2ª parte)










Alessandro Faleiro Marques*

No artigo anterior, o primeiro contato com a monumental Basílica de Nossa Senhora Aparecida, no Vale do Paraíba. Agora, depois da avidez do olhar e das pernas, um pouco de detença.

As horas por lá foram insuficientes para vermos tudo, mas o que sentimos já nos fez participar do capítulo começado no segundo semestre de 1717. A história tem lá suas vaidades. Quando nos assustamos, nela estamos. Criatura esperta. Nós nos damos conta, e já nos pegaram as linhas dos registros. Não há como escapar. Basta nos aproximarmos delas.

Para as estatísticas, éramos um nada. Dois pontos. Para a dona da casa, um filho e uma filha juntos com mais dezenas de milhares de irmãos. Coisas de mãe de Onipotente.

Aparecida parece zombar de tamanhos. A cidade e a imagem da padroeira, minúsculas; a fé do povo, imensurável. Diante desta, o templo gigante e a passarela curva nem se comparam. Do chegado da roça ou da metrópole, de quem já viu tudo ou ainda verá, grande parte do Brasil parece querer caber naquelas colinas. Provar isso é fácil.

Se o País fosse um livro, certamente o sumário dele estaria no subsolo do santuário. Antes nas paredes da antiga igreja, os reorganizados ex-votos são testemunhas silenciosas de choro e alegria. Sofrimento tornado júbilo. Lágrima enxuta tornada crença nova. A Sala das Promessas, como é chamada, tem rastro de doutor e de peão deste e até de outros povos.

Do teto, milhões de rostos parados em fotografias parecem querer gritar aos que chegam: há o além-palpável. Esperança existe, e é o terminar bem de tudo.

Ressurreição é pra vida toda. Olhando pra parede, vê-se a imagem da padroeira vigiando em sorriso. Mais uns passos, as panelas do avesso, os diplomas, as ferramentas, os capacetes, as fardas e as medalhas. Depois da pilastra, os quadros, os vestidos de noiva, as bandeiras. Ao canto, a réplica do barco dos três pescadores que, no século XVIII, atualizaram o milagre dos peixes do tempo de Cristo. Mais um olhar para cima, e as peças de cera. Braços, pernas, rins, cabeças formando o corpo das dores curadas. No armário, armas. Embaixo, símbolos enfileirados de atletas. Ali, humildes, membros do mesmo time.

O murmúrio dos visitantes abafa o antigo sofrimento emanado dos vícios empilhados em outra prateleira. Coisa dura de ver. O que na tevê era sorriso de comercial, na sala dos milagres, é sobra de amargura. O riso de verdade parece existir agora, mas distante das garrafas, maços e cartas.

Naquele subsolo, tivemos a certeza: erramos acompanhados neste mundo. Nem museu, nem pura exposição ou ponto turístico. De tudo era naquela ponta de livro vivo. Sentimos falta das correntes quebradas, da pedra carimbada pela ferradura. Mas nós as encontramos depois. Assunto para a próxima parte deste artigo.

Contato: faleimar@hotmail.com

Manhã nublada










Por Iandê Cacira


As cinzas aparecem,
Espere por favor,
A cidade nasce quando os destroços desaparecem.

Baby é só o amor que liberta.
Baby é só a morte que liberta.

Cada alma na esquina,
À Espera do clima,
Da hora certa,
Da neblina.

Vamos atacar quando amanhecer,
Nós estamos em todos os lugares,
E os lugares estão em nós,

Quando despertarmos o reinado será imaginário.

Baby é só a morte que conheço,
As mudanças chegaram,
Mas, tudo, não é só mudança?

Um emaranhado de destruir,
Para reconstruir,
Sem uma existência,
Sem resistência…

Contato: iandecacira@gmail.com