quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Tarde de autógrafos de "Ideias noturnas"

Por Eduardo Sabino

No dia 28 de novembro, estive na livraria Leitura do BH Shopping, autografando o meu livro de contos, “Ideias noturnas sobre a grandeza dos dias”. Foi um momento muito bacana, com a presença de muitos amigos, colegas e familiares. Agradeço a todos que compareceram. Até a próxima!

























Fotos: Marcelo Martins e Cristiano Silva

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Clube da Luta: um soco na sociedade do consumo










*Eduardo Sabino

“Eu sou o frio na espinha de Jack. Aquele frio de ódio de estar em vários lugares. A onipresença do que não existe dentro de cada um de nós”

Dezenas de homens estão reunidos no porão de um boteco. Eles rodeiam dois novatos do grupo que, sem camisas e sapatos, espancam-se de punhos cerrados. No grupo, há garçons, executivos, cozinheiros, advogados, médicos e até policiais. Mas ali nenhum deles tem nome ou profissão. No clube, eles são um só. Nesse instante, entram em cena o proprietário do bar e seus capangas. Armados. Interrompem a luta e ordenam que aquele bando de “irresponsáveis” saiam dali para sempre. Tyler Durden, o líder, pede permissão para continuarem as reuniões. Recebe como resposta um soco. Continua a provocação e leva uma surra do dono do bar. Tyler recebe os golpes às gargalhadas, assustando os membros do clube. Por fim, se joga em cima do agressor que, desesperado com o homem maltrapilho e surrado cuspindo sangue em seu rosto, acaba aprovando a continuidade do clube. Após a surra, Tyler é carregado pelos outros e colocado numa cadeira. É o momento em que passa a primeira lição de casa para os membros do clube. “Nesta semana”, diz com dificuldade, “vocês vão provocar uma briga com alguém... e vão perdê-la”.

Essa é uma cena de um dos filmes mais representativos dos tempos pós-modernos, Clube da Luta, de David Fincher, lançado em 1999. Fincher adaptou o livro homônimo do escritor norte-americano Chuck Palahniuk e brindou os amantes da telona com uma verdadeira obra-prima.

Clube da Luta toca na ferida da sociedade de consumo. Apresenta a negação do ser humano ao mundo das mercadorias globalizadas como raras vezes se viu no universo artístico. O filme aponta: tão vazio como as coisas são os consumidores atuais, perdidos entre cartões de crédito, logomarcas e informações para consumo.

O protagonista e narrador (Edward Norton) é um executivo de uma companhia de seguros, do qual, do início ao fim do filme, não saberemos o verdadeiro nome. O seu trabalho é investigar acidentes e fazer relatórios, preferencialmente com argumentos capazes de isentar a empresa dos pagamentos de seguro. Ele tem uma vida confortável, um apartamento luxuoso e o hábito de trocar, mês a mês, toda a mobília. Mas existe algo errado com sua vida. E por não saber o motivo, não consegue dormir.

A primeira solução para o vazio é participar de sessões de terapia. Em meio a doentes terminais de câncer, parasitas do cérebro, doenças respiratórias, entre outros graves enfermos, acaba encontrando mais sentido para a vida. Passa a dormir como um bebê. A alegria dura até o surgimento de Marla. Uma mulher aparentemente saudável que começa a frequentar também as reuniões. Logo percebe: outra impostora. Diante disso, a sua mentira se torna vulnerável, e a insônia restabelece.

É Tyler Durden (Brad Pitt) quem resgata o narrador do abismo. Conheceu-lhe no avião, numa viagem a trabalho. Após uma suspeita explosão de seu apartamento, o protagonista acaba dividindo um casarão abandonado com o estranho. “Perdi tudo”, confessa a Tyler. “Não perdeu”, retruca o novo amigo. “Você achava que possuía aquelas coisas, mas eram elas que possuíam você”.



A partir daí, os dois começam o confronto direto com o mundo do consumo. Tayler, alegando não querer morrer sem uma cicatriz, pede para o outro batê-lo na cara, com força. Os que assistiam àquela espécie de briga entre amigos tornam-se os primeiros integrantes do clube.

O Clube da Luta não é sobre perder ou ganhar, muito menos violência gratuita, mas uma espécie de refúgio para a verdadeira violência, a das belas imagens dos outdoors. Ali acontece o que o filósofo Zizek chamaria de busca da totalidade do real. Os homens do clube se confrontam com o mesmo objetivo clinicamente comprovado das pessoas que se dilaceram para ver o sangue correr. Sentiam-se mortos, num mundo de imagens, e os socos e pontapés é a maneira de se sentirem vivos.

O que era um subterfúgio para a realidade ilusória do capital transforma-se em confronto direto com o sistema. A ideia alastra por cidades, Estados, ganha filiais. O Clube da Luta transpõe o limite físico, vira conceito. Quando Tyler ordena, “vocês vão provocar uma luta e vão perdê-la”, diz o oposto dos gestores do mundo do consumo. A briga agora é com a própria competitividade mundana, essa necessidade de sempre vencer no mercado-vida. Enquanto o marketing trata você, cliente, como um ser especial, Tyler grita aos seus discípulos por um megafone: “Vocês não são especiais. Vocês são a merda ambulante do mundo”.

O clube desenvolve para o Projeto Caos, uma teia tão grande como as redes do mercado, com técnicas semelhantes (embora aplicadas às escondidas) para novas adesões. Destruição de outdoors, boicote de eventos empresariais e até coisas que seriam classificadas simplesmente pela mídia como terrorismo, tornam-se os meios para o Projeto Caos cumprir sua “missão”. A ideia, pasmem, é destruir os alicerces da civilização e recomeçá-la.

Há quem defina o filme como um surto, bancado pelas mesmas corporações contra as quais se choca. Há quem não entenda nada, comparando-o aos enlatados estadunidenses. Outros, como eu, incomodam-se com o soco na cara. Golpe violento, mas que nos lança para além das cavernas de granito.

Concluo por minha conta e risco, o longa-metragem mais corajoso de todos os tempos. E nem mais uma palavra. Já descumpri bastante as duas primeiras regras do clube.

*eduardosabino1986@yahoo.com.br

Metáforas e o miado dos gatos












*Joaquim Moncks

Denunciadoras da Poesia,
metáforas
são como gatos escaldados.

Dificilmente
aparecem aos donos,
somente aos vizinhos!

– Do livro "Bula de remédio", 2005/2009.
Publicado também no
Recanto das Letras.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Caos










*Cristiano Silva

Prólogo

Não estranhe a canção (sei que vai estranhar). É só mais um grito esperando a dor certa para ser decifrado. E nessa, lerá, tal qual o silêncio de uma garota ou um velho, ambos sujos, gritando sem parar na esquina: "Depois de derramar piche, forjando novas veias, o vírus do consumo (Vc1), junto à sua trupe de bactérias e seres acéfalos, continuará sua proliferação, entupindo de cinza nossos dias."

Capítulo I

Talvez eu saiba: o certo está errado.
A gramática é a vida e a ordem é um engano,
Talvez saiba: cada deus tem seu diabo.

Talvez... a morte não exista.

Saiba ainda que a poesia não é minha.
Nós, eu, éramos, fomos perdidos, no cheio, no nada.
Talvez saiba que eu não sei se existo.

*cristpsilva@gmail.com

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Fogo-fátuo










*Eduardo Sigrist

Dizem que a arte eterniza. Eterniza a beleza. Eterniza o amor. Eterniza o fugaz afago de um instante. Talvez. Mas e quanto ao sofrimento, ao horror? Será que um artista tem a capacidade – ou o direito – de condensar, numa pincelada rubra, a expressão da perplexidade humana diante da tragédia? E não falo da tragédia heroica, da inexorável desventura greco-latina, da tragédia, enfim, trágica. Falo do olhar de uma mãe defronte ao corpo cadáver do único filho, abatido pela inglória foice suja de merda de uma diarreia. É possível retratar e perpetuar a já infinita dor dessa invertida orfandade? Afinal, quantas são as cores primárias? Apenas três, certo? E as dores primárias, como contabilizá-las? Como encontrar a mistura certa de tintas para pintar a escuridão completa de uma existência incolor?

Essas questões me vêm à mente porque neste momento observo um pintor, com o cavalete montado na margem do rio pelo qual eu passo rumo ao meu destino. Não enxergo sua obra, mas tenho certeza de que me pinta. A cada braçada de meu barqueiro, uma pincelada na tela. Ele me olha, me esquadrinha, e maneja o pincel arrogantemente, como se fosse o próprio Deus dando forma a uma nova criatura. Mas o que sabe ele da minha história? O que enxerga em meu rosto, em minha alma? Será ele onisciente como o criador?

Ele não sabe nada de mim. Aposto que, por conta de meu vestido preto, me toma por uma viúva indefesa e pinta minha face com um tom lívido e angustiado. Idiota. Fraco de espírito, como todos os homens desta terra. Não sabe que é ele próprio o ser humano indefeso da história, disfarçando no vaivém do pincel sua vacilante condição de macho. Assim como certo homem respeitado e venerado desta corte, cujo nome não vem ao caso. Esse senhor também era mestre em manejar o próprio pincel, com o qual me lançou nas entranhas sua espessa tinta. O pincel – instrumento, arma, obelisco, cajado – é o objeto mais poderoso com que o macho conta para impor sua primazia e esconder sua indecente fragilidade.

Estou grávida. Trago dentro de mim a obra suprema da criação humana e divina. Mais humana ou mais divina? Herege, disseram em coro. Nem o homem nem o Espírito Santo me fizeram conceber. No tribunal, julgaram que o filho que espero vem das trevas, fruto das noites de bruxaria. Do meu pacto com o diabo. Ah, se eles soubessem que esse diabo veste pálio e mitra. Se percebessem no rosto do meu próprio juiz o suor fervente, saturado de pecado e luxúria. Talvez até o saibam. Mas alguém tem que ser condenado pela perdição da humanidade, e nada melhor do que encontrar uma Eva qualquer em quem vestir a mortalha simbólica do primordial pecado.

Minha mortalha. Negra como o coração daqueles homens que me condenaram à fogueira. Negra como o riso das mulheres que me atiraram no rosto a maculada pedra da própria virtude corrompida. Negra como o olhar oblíquo do barqueiro encarregado de me transportar pelas águas do Letes até o local onde serei imolada. Negra como o odor dessas flores vermelhas com a qual me coroaram e estigmatizaram. Negra como a tíbia vida que trago em meu útero e que penetrará a noite eterna sem sequer ter conhecido a ofuscante claridade desta vida.

O artista me encara da margem. E sorri, talvez esperando que eu lhe retribua o ato, para que ele possa fazer de mim a sua Monalisa. Ignoro. Pouco me importa se ele vai me retratar como viúva, amante, sonhadora, bruxa, puta. Por mim, pode pintar meu rosto de azul, pode inventar lágrimas pungentes, pode me adornar com asas ou chifres. Será apenas uma imagem, o esboço de uma mulher idealizada. Não serei eu. Aliás, em poucas horas, eu não serei mais. Desaparecerei na pira da insensatez humana, no fogo que ao mesmo tempo forja poetas e destrói a poesia. E dizem que a arte eterniza.

*eduardosigrist@gmail.com

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O Paraíso desde já: duas visões sobre a dor










*Alessandro Faleiro Marques

Hoje, o sexo já não é mais o principal tabu, mas sim as coisas ligadas à doença e à morte. Poucos frequentam com espírito sereno um ambiente de exceção, como um hospital, por exemplo. No contexto cristão, contudo, a dor tem um sentido interessante. Diferente da sociedade da produção, na qual o enfermo muitas vezes é visto como um peso, uma “peça defeituosa”, no cristianismo, aquele que sofre tem uma incumbência singular e, ao mesmo tempo, desafiadora para todos.

Para entender um dos olhares cristãos da dor, voltemos a uma célebre sexta-feira de quase dois mil anos atrás, em Jerusalém. Depois de passar por um dos julgamentos mais questionáveis da História, Jesus foi condenado a morrer na cruz. Segundo o evangelho, durante o caminho do Messias ao calvário, os soldados obrigaram um homem que voltava do campo a carregar o pesado madeiro, pois temiam que o Salvador não tivesse condições de chegar ao final do sinistro itinerário. Mesmo forçado, Simão, da cidade de Cirene (por isso conhecido como Cirineu), ajudou o Cristo a cumprir a Via Dolorosa e acabou tendo o nome imortalizado na história da salvação (cf. Mt 27,32; Mc 15,21; Lc 23,26).

É possível fazer um paralelo entre o esforço daquele agricultor e o dos doentes. Uma linha teológica diz que os sofredores em geral, entre eles os enfermos, são aqueles que, ainda hoje, ajudam Cristo a carregar a cruz. Como Cirineu, que fez uma “caridade” sem querer, quem chora com a dor não quer passar por ela, mas ganha esse compromisso. Certamente, numa perspectiva de fé, como aconteceu com Simão, é reconhecido por Deus. Em outras palavras, o “dolente” (ou seja, aquele que sente dor) seria da “tropa de elite” divina. Participa do sacrifício messiânico em um dos momentos mais importantes.

Diferente do que acontecia há séculos, a dor não é mais tão destacada, mas sim a ressurreição de Jesus, a vitória sobre o tormento. Felizmente. A gente piedosa, porém, continua identificando-se com a agonia de Cristo. Basta ver que a cultura religiosa popular católica, especialmente a latino-americana, por exemplo, enfoca mais a Sexta-feira da Paixão do que a Páscoa.

O bom cristão, no entanto, não é conformista. Já neste mundo, ele tenta implantar o Reino celeste esperado e prometido. Na lógica da fé, não há dor no Paraíso. Por isso, quem realmente segue os ensinamentos de Jesus não admite sistemas de saúde precários, deficiência na prevenção e descaso contra os enfermos e profissionais que deles cuidam. Essa é a outra forma de o cristianismo ver a dor. A mortificação voluntária, como faziam os antigos místicos, hoje tem pouco sentido.

A luta “para que todos tenham vida em abundância” (Jo 10,10) é uma legítima tarefa cristã. O próprio Cristo tinha grande compaixão pelos sofredores, e não é difícil achar trechos dos evangelhos em que Ele cura, conforta, alivia o sofrimento físico e espiritual. Ele é o próprio exemplo para seus seguidores fazerem multiplicar, desde hoje, a alegria eterna, numa terra sem males (pelo menos os evitáveis), sem se esquecer da dignidade dos que sofrem.

* faleimar@hotmail.com

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O último ato











*Paulo Lima

Éramos os Rat Pack sem a fama, o charme e o talento dos Rat Pack. Foi tudo ideia de Bruno, o intelectual do grupo. Ele manjava horrores de cultura americana, mesmo sendo tão jovem. Herança do pai, um fã incondicional de Frank Sinatra e seu bando: Sammy Davis Jr., Dean Martin e Peter Lawford. Para Bruno, a Cultura e a História eram fontes inesgotáveis de sentidos e respostas. Mas no fundo éramos quatro universitários sem eira nem beira, uns estúpidos classe média autocomplacentes e com mania de grandeza. Isso é o que a gente era.

Além de Bruno havia Flávio, o tecnólogo, sempre às voltas com as novidades computacionais, num tempo em que os computadores eram máquinas enormes e ruidosas. Vivia tentando nos convencer de que o futuro seria cibernético. Andava pra todo lado com um surrado exemplar do “Uma odisséia no espaço”, de Arthur Clarke, no bolso.
“Um dia, tudo será diferente”, ele costumava repetir como um Messias pregando a boa nova, ridicularizando os recursos tecnológicos dos quais podíamos dispor – tevês gigantescas, telefones de disco, calculadoras do tamanho de um tijolo.

Ricardo era o político dos Rat Pack, e enxergava em tudo um quê de conspiração. Suas convicções se inclinavam para a esquerda ou para a direita como uma biruta de aeroporto. Jamais a força dos hormônios fora tão decisiva para definir uma visão de mundo como no caso dele. No início dos anos 80, o mundo era mais maniqueísta. Russo ou americano. Preto ou branco. Ser ou Ter. Ricardo punha tudo no mesmo liquidificador e não estava nem aí.

Nenhum de nós possuía fervor religioso, fato que nos poupou tempo e discussões infrutíferas.

Hoje, no lugar frio em que estou, me veio a lembrança dos Rat Pack. É por causa deles que estou neste lugar. E é neste ponto que a nossa história recomeça, 20 anos depois.

***

Agora eu tenho quarenta, quarenta e poucos anos. Era um fim de semana como outro qualquer. Eu me recuperava de uma jornada extenuante no banco. (Quem diria, o escritor dos Rat Pack, o aspirante a romancista, foi parar num banco. Eu esganaria o zarolho do Sartre se pudesse alcançá-lo. Não existe livre arbítrio, monsieur, apesar de você tê-lo defendido tanto. O destino é uma teia que nos enreda desde o início. Mas disso a gente nem desconfia. Só vem a saber depois, quando tudo já passou.).

Então eu me recuperava e o telefone tocou. Minha mulher atendeu. Disse pra você, pôs o fone sobre a escrivaninha e saiu. Movi-me a contragosto. Atendi.

“Rat Pack!”, disse a voz do outro lado, como se fosse uma intimação.
“Sim?”
“Rat Pack!”, a voz voltou à carga. E seguiu-se uma gargalhada.
“Se isso é uma brincadeira...”, fui engrossando.
“Caralho, você tá o mesmíssimo careta!”, provocou a voz.
“Eu careta e você um filho da puta. Faz favor, sim?”
Desliguei. O telefone voltou a tocar. Minha mulher atendeu. “Pra você”. “O mesmo sujeito”.
Fui pra cima com gosto.
“Escute aqui, ô seu filho da p...”
“Caramba, Edu, você acordou mesmo valentão hoje, hein? Aqui é o Bruno, meu velho. Bruno. Rat Pack. Rat Pack. Rat Pack”.
A frase ficou ecoando em minha cabeça como ondas provocadas por um seixo atirado contra a superfície calma de um lago. Uma luz se acendeu lá no esconderijo da minha memória.
“Bruno! Rat Pack! What a long time!”, eu disse.
“Longuíssimo, caro Sammy, longuíssimo!”, Bruno riu com gosto.
“E a que devo a honra? E como me encontrou?”
“O passado bate à porta, Edu”, e foi logo desatando numa gargalhada. “Sacanagem minha. Foi sua irmã quem me falou de você”, ele explicou. “Eu a encontrei por acaso, outro dia”.
“E porque só agora, Frank?”, perguntei intrigado.
“Um encontro, caro Sammy. Quero reunir os Rat de novo. Você, Dean Martin e Peter”.
“Algo no estilo o último ano do resto de nossas vidas? Ah, mas você encaretou mesmo, hein Frank?”
“É a idade, Sammy, a porra da idade. E então, negócio fechado?”
“Negócio fechado, Frank. Onde, quando, a que horas?”
“Sunset Boulevard, Sammy, na Horse Tavern. Amanhã around 19h.”
“Serei capaz de reconhecê-lo, Frank? A você e aos Rat?”
“Sure, caro Sammy. Somos os mesmos garotos, eu, Dean e Peter”, e
Bruno riu ainda mais alto.
“Com ou sem nossas mulheres, Frank?”
“Como nos velhos tempos, Sammy. Completely alone. Sozinhos, naturalmente.”

Uma torção do destino, um telefonema, uma voz do passado, e sua vida vira de ponta cabeça. Destino. O destino, eu penso aqui neste lugar escuro e frio em que estou.
No dia seguinte, saí ao encontro dos Rat Pack, 20 anos depois.

A Horse Tavern era um pé sujo onde a gente costumava se reunir sempre às sextas feiras, depois das aulas. Os assuntos eram anárquicos e cobriam um amplo leque.

Mulheres em primeiro lugar, as gostosas, as degustáveis, as que facilitavam as coisas. Depois a profissão; os cursos que havíamos escolhido nos dariam um futuro? Aí entrava política, música, cinema e tudo e tal. A típica conversa de boteco. Como Bruno tinha certeza de que o pé sujo ainda funcionava, tanto tempo depois? Eu já estava gostando do jogo.

Bruno seria o anfitrião da noite, e isso justificava o fato de que já estava lá quando cheguei. “Just in time, meu velho”, ele saudou com um sorriso efusivo, apertando minha e me estapeando nas costas. Depois me enlaçou pela cintura, me balançando pra um lado e pro outro, como se estivéssemos dançando.

Ele pouco havia mudado, embora metade do cabelo se tornara branco e metade sumira. Afora esse detalhe, ele podia contabilizar o tempo em seu favor. Ocupamos uma mesa perto da entrada. Sentei-me e começamos a bebericar uma cerveja, como os Rat Pack que fomos. Um carro buzinou lá fora e alguém acenou. “Flávio!”, falamos quase em uníssono. “Rat Pack, Rat Pack, Rat Pack”, ele gritou marcando o ritmo com o pé direito.

Também Flávio parecia o mesmo. Como, não se sabe, mas mesmo quarentão conservava a juba intacta. Apenas o tempo lhe somara uns tantos quilos. Aqui e ali, uma ruga discreta. Distribuímos tapinhas e abraços. Ricardo foi o último a aparecer. O mais político dos Rat Pack engordara, era o mais modificado de todos. Batemos as mãos na mesa e saudamos o velho buddy com uma saudação, um triplo Rat Pack.

Aqui no meu canto escuro e frio, me esforço para lembrar os detalhes daquela noite, do que Bruno nos contou, justificando o convite para um encontro tanto tempo depois, como se estivéssemos celebrando uma espécie de jubileu – talvez uma reunião privê dos formandos de 1984, ano em que nos graduamos, cada um em sua especialidade. Mas o que Bruno expôs era mais grave e urgente, algo que, de certo modo, envolvia a amizade, a nossa amizade:

My friends, estou muito doente. Vocês veem essa minha tez rosada? É tudo engano. Sofro de um mal incurável e não vou durar muito tempo. Minha mulher e meus filhos já estão conformados. Mas eu queria me despedir dos velhos amigos. E em grande estilo. Quero propor um rendez-vous em minha homenagem. Não poderia contar com outros amigos, senão vocês, para essa despedida, esse gran finale. O plano é simples. No próximo fim de semana vou dar uma festa na minha casa de campo. Apenas os Rat Pack e um grupo seleto de mulheres. Vamos comer, beber e amar até as últimas forças. Minha última esbórnia, minha resposta dionisíaca à sacanagem dos deuses. Vocês estão comigo? Como nos velhos tempos?

Tento me confortar neste lugar escuro e frio. Bruno me colocou numa situação difícil. Eu nunca imaginei que era essa a razão do nosso reencontro. Flávio foi o primeiro a romper o silêncio. Disse que faria qualquer coisa pelo amigo, e que o aspecto concupiscente do rendez-vous era algo de menos importância, pois há tempos saía com outras mulheres, sem que sua mulher tomasse conhecimento, embora desconfiasse.

Tudo ok para Flávio, mas não para mim, a última cidadela da fidelidade. Sentia-me ridículo às vezes por manter esse troféu retrô, enquanto todos se divertem com suas escapadelas. Esperei para ouvir Ricardo. Como eu deduzi, prevaleceu o espírito de corpo. Ele disse sim. Fazia tempo que ele e a mulher dormiam em camas separadas.

Coube a mim propor uma saída honrosa, alternativa à luxúria para os últimos dias de um condenado. Sugeri, sob os olhares de reprovação dos Rat Pack, que Bruno fizesse, ele e a família, uma viagem inesquecível, um roteiro que ele ainda não tivesse feito e pelo qual ansiava há muito tempo. “Meu caro Sammy”, ele contestou com convicção, “não há buraco distante neste planeta que eu não tenha visitado ao longo dos anos”. “Se propus um fim de semana de luxúria”, ele disse, “não é que ela me falte ou me faltou, mas é para afirmar o poder da vida diante da morte”. Na amizade não tem pra quê, nem por quê, disse o poeta. Então eu concordei com o rendez-vous.

No dia combinado, fui encontrar os Rat Pack e celebrar a vida e a amizade. Em casa expliquei que era um fim de semana de trabalho, um encontro corporativo. Não deixava de ser.

Peguei a estrada, e numa curva perdi o controle do meu carro. No choque frontal com o outro veículo, pouco restou de mim. Isso não estava escrito, não para mim, mas ninguém escreve o próprio destino. Os Rat Pack devem ter estranhado um bocado a minha ausência. Sei que faria tudo pela amizade, por Bruno. Eu já estava a caminho. A culpa foi do destino.

*paulo_val@uol.com.br