segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O homem do terno de vidro










Márcia Barbieri*

“O tempo, o tempo é versátil, o tempo faz diabruras, o tempo brincava comigo, o tempo se espreguiçava provocadoramente, era um tempo só de esperas, me guardando na casa velha por dias inteiros (...) (Raduan Nassar - Lavoura Arcaica)”

Sentia o perfume indiscreto do concreto fresco da nossa casa. De fora, um cheiro forte de peixe me entupia as narinas. Era estranho, porque o mar estava tão longe dos nossos olhos faiscados de areia. Apenas um minúsculo aquário inabitado enfeitava meus pensamentos. A gordura mórbida da solidão. Morávamos numa ilha e jamais tivemos saudades ou necessidade do mar. O mundo ia e vinha, holístico, tão alheio a tudo...

Indústrias fabricavam sonhos de novos amores e nós comíamos do pão mofado de cada dia. Vinte mil léguas submarinas. Não entendia as engrenagens engolindo monstros e crianças disformes, mas me dava por satisfeita por não ser devorada, faltavam somente alguns pedaços inúteis, que provavelmente não sentirei falta no futuro.

Juntos, planejávamos viagens que nunca faríamos. Contabilizávamos filhos já perdidos nos labirintos ocos e fétidos do ventre. Não compreendia o motivo do nascimento se localizar tão a margem da lama. Bocas de lobo deságuam em mim. Encaramujo. Nas horas de monotonia crio larvas raras e até agora nenhuma se transformou em borboleta, serviram apenas para engolir nossos jardins, em seu tímido, porém grotesco gigantismo.

Olho-te. Côncavo. Um relógio de pêndulo ameaça a paz das paredes caiadas. Tempo hemorrágico maculando meus olhos em andrajos de sangue e tédio. Palito os dentes e retiro restos de cadáveres. Venho me alimentando da vileza humana. Caranguejos esnobes de subúrbio.

Arrasto os pés pelos corredores ruidosos. Tudo que é velho range e dói, apenas nossos corpos se perdem num silêncio constrangedor e destrutivo. Rasgos. Você se foi. De repente. Entre os vãos. Deslizes. Não te culpo da ausência dessa paixão furta-cor. Mas peço que traga algo para estancar o sangue da minha garganta.

Fisgadas. Ainda convulsiono pelo assalto ao eco das minhas palavras. Narcisos.

Torço os dedos e desfaço antigos nós. Você sempre fora forte. Viril. Um peixe grande. Observo, no entanto, a incoerência dos seus trajes. O homem do terno de vidro.

*marcia_barbieri@hotmail.com

A ilha











Joaquim Moncks*

Estou longe de casa, perdido de amores. O toque fica impossível.
Somente a palavra e sua baba espumarenta. Tenho em casa duas gatas amorosas. Felinas a todo o tempo. E o volume de meus escombros sugere o poema próprio dos suicidas.

A tarde sumarenta de calor e verdes... Pampa de minhas desgarradas andanças. Andréa é a felina dos lençóis. Malhada, a de quatro patinhas que deita junto às teclas do computador e dorme sobre minhas fatigadas coxas. Ambas deitam comigo suas estridentes cócegas. Uma mia triste o pré-suicídio dos pelos. A outra ressona notívagos humores e tratos.

Andréa me conta que Malhada, há dois dias, fica olhando o monitor do computador e a põe ao telefone, a ouvir o que conta a saudade. Constata que a gatinha molha os olhos e se espanta, porque não sabia que os gatos choravam.

Pouco sabemos dos afetos, porém degustamos todos os dias os sabores dos venenos...

Os filhos poderiam ser plácidos, ao menos em alguns dias crepusculares de afetos. Talvez pudessem curtir o ronroneio agradecido do mistério de se saberem vivos e sem culpas.

E a baba dos signos me aperta a garganta.

– Do livro "Alma de perdição", 2009-2010.
Publicado também no Recanto das Letras


*joaquimmoncks@gmail.com

Ele










Eduardo Sabino*

Quando eu era pequeno, parecia que ele me ignorava. Na verdade, descobri depois, quem o ignorava era eu. Ele esteve sempre comigo, embora meio ausente nos primeiros anos. Aí vieram as festas de família, as namoradas, a adolescência. Aí eu o notei. E nos tornamos os melhores amigos. Andávamos abraçados pelas ruas. Ele ajudou-me a esquecer as paixões, levou-me à roda gigante e lá ficamos até a exaustão das horas. Na milésima volta a gente começa a ficar zonzo e nada mais faz sentido, sabe? Aprendi muito sobre pouquíssima coisa, mas as ideias que fizeram morada na cabeça, ele me ajudou a organizar.

Meu melhor amigo, o canalha, até o findar do segundo terço da minha vida. Depois se enciumou. Queimou as flores do meu jardim, afastou amigos e familiares, apagou lembranças, acabou comigo. Quando me meti numa cama, trouxe-me mais rugas em vez de bombons. Só assim notei sua crueldade e, por que não, a sua força. Era um feiticeiro, o infeliz. As suas varas de condão, velozes, transformaram-me em uma ameixa passada. Mas sou-lhe muito grato, apesar de tudo.

Ele me empurra agora por uma das ruas da infância – a sem saída – as pessoas aos arredores acenam. “Você vai me ajudar a saltar o muro?”, interrogo quase sem voz. Ele continua a empurrar a maca, murmurando um tique-taque quase inaudível em ritmo de blues. Para mim aquilo não era novidade: ele nunca parou para me ouvir.

*eduardosabino1986@yahoo.com.br

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Aponta-dor










Larissa Minghin*

Aponta-dor.
Escorrego:
escorre ego, escorre...

Eu deixo ir,
eu lavo a alma,
eu rego as flores
que moram em mim.

Aponto as dores,
descubro novas cores,
aponto o grosso
grafite que sou.

Rabisco leve,
deslizo, danço.

Fino escreve quem usa apontador.

*laraminghin@gmail.com

O tombo e o cubismo










Paulo Lima*

Mr. Bean é uma espécie de Buster Keaton moderno. No tempo do cinema mudo, Buster Keaton nunca sorria em seus filmes. Nem por isso deixou de ser considerado um grande comediante. Mr. Bean, na verdade o ator britânico Rowan Atkinson, jamais fala em suas comédias. Ele se comunica com grunhidos e esgares. Nem por isso se torna menos engraçado.

Em “Mr. Bean, o filme”, Atkinson é um atrapalhado funcionário da Royal National Gallery, de Londres. Uma galeria de arte americana compra um valioso quadro exposto na sua similar britânica. Mas é estipulada uma condição: que a galeria envie um especialista para apresentar a obra em solo americano. Como vingança, despacham Mr. Bean.

Nos Estados Unidos, Mr. Bean se instala na casa do curador David Langley. Chega então o momento de ser apresentado ao quadro. E, zás!, ocorre um acidente. Mr. Bean mancha uma área da pintura. O que vem em seguida confere a graça e o humor do filme. Que, no fundo, não deixa de ironizar as galerias e seus objetos supervalorizados.

A vida imita a arte. Nesta semana, uma mulher perdeu o equilíbrio e caiu sobre um quadro de Picasso exposto no Metropolitan Museum of Art, de Nova York, provocando um rasgo de 15 centímetros na obra. Segundo informação do avaliador Gerard van Weyenbergh ao Washington Post, a pintura nunca irá recuperar seu valor. Trata-se de uma perda de pelo menos 50%. "Mesmo sendo um buraco pequeno, colecionadores de Picasso, como Steven Spielberg, não se interessarão", disse.

Logo a notícia sobre o infausto correu o mundo. Afinal, a tela, cujo preço é estimado em 65 milhões de dólares, é um legítimo Picasso pertencente à chamada “fase rosa” do artista.

Nesse episódio, que diz mais sobre a segurança da galeria e menos sobre o tombo em si, é possível que especialistas e técnicos tenham tido noites insones pensando em como restaurar o legítimo Picasso. Eu perdi meu sono pensando na desafortunada destruidora. Ela será penalizada? Terá de pagar pelos reparos? Sentiu-se devastada por seu ato involuntário? Responderá perante algum tribunal?

Seja lá como for, ocorreu um grande rebuliço digno de movimentar placas tectônicas, ou de provocar oscilações nas bolsas de valores. Porque um Picasso danificado é como um blockbuster de Hollywood sem efeitos visuais. É como um hamburger sem fritas. Só que pior, pois mexe com um dos mestres da arte do século XX.

Escrevi rebuliço. Mas Millôr Fernandes, o mestre-humorista, alfinetou em uma de suas máximas: arte é intriga. Se é intriga, então acrescentarei minha pitada pessoal. Lá vai. Prefiro qualquer quadro de Edward Hopper a qualquer Picasso. Guernica incluído. Prefiro qualquer quadro de Vincent van Gogh a qualquer Picasso. Prefiro qualquer quadro de Matisse a qualquer Picasso. Prefiro qualquer quadro de Lucien Freund.

Tumulto. Vozes de protesto. Xingamentos. Minha cabeça a prêmio.

Não tenho elementos estéticos para contrapor. Não descerei a tecnilidades que me são estranhas. Poderia até pesquisar em um desses almanaques de História da Arte argumentos plausíveis e, de lá, retirar as razões do meu anticubismo.

Mas não precisa tanto. Se opto por um Hopper, ou um van Gogh, ou um Matisse, ou um Freund em detrimento de um Picasso, é que aqueles falam às minhas preferências estéticas. Aos meus olhos. Ao meu coração. Simples assim.

Guernica, um painel pintado em homenagem à população da pequena cidade espanhola destruída pela aviação nazista em 1937, é um ícone da arte engajada. Da arte com mensagem política. Mas, efêmera, a política passa. A arte fica. Guernica?

Em oposição aos críticos, Gertrud Stein saiu certa vez em defesa de Picasso. Ela fez notar que a paisagem vista do alto revela formas geométricas, próximas do cubismo. Correto. Já contemplei o mundo de cima diversas vezes a bordo de um avião. Sim, aquele quadriculado lá embaixo é cúbico. Não resta dúvida. O escritor Joseph Conrad atribuía um objetivo a sua literatura. Ele escreveu: My task is to make you see (“meu papel é fazer você enxergar”). Talvez Picasso tenha nos ensinado a ver pela primeira vez o que não éramos capazes de enxergar. Arte como transmutação, transcendência. Enlevo. Ou intriga, diria Millôr.

Justificando sua filosofia de superação - a filosofia do super-homem (ou além-homem) -, Nietzsche afirmou, referindo-se a si próprio: alguns nascem pósteros. Toda grande arte nasce póstera, e se reafirma pelo tempo afora. O cubismo tornou-se um movimento influente, uma estética que mostrou novos caminhos para a arte. Póstero? Mas não me impressiona.

Gosto de pensar que talvez esse incidente do Metropolitan carregue em si uma forte simbologia: não foi atingida apenas a tela de um pintor famoso. O ato em si representaria o fim da arte e o sentido que ela possa ter tido um dia. Como se a arte não fosse capaz de sobreviver a um rasgo de 15 centímetros.

*paulo_val@uol.com.br

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O crime do papel colorido










*Alessandro Faleiro Marques

Chegara o dia. Casa vazia. Os filhos e os netos viajando, como previra. Nos últimos tempos, a senhora, respeitável, andava com um semblante de leve mudado. Não era uma linha a mais do bisturi do tempo, tampouco o prenúncio de outro ataque aos rins, evento comum desde que perdeu o marido. Pelo contrário, a senhora espichava mesmo era um sorriso no rosto. Atrevido tal vilã de novela das seis. Se a filha mais velha fosse menos voada, certamente notaria alguma coisa para acontecer.

Exímia cozinheira, a doninha andava demonstrando certa preguiça em manipular os temperos, substâncias quase mágicas nas mãos dela. Havia um certo silêncio pela casa. Aumentou-se apenas o ruído das pancadas estranhas e impacientes nas panelas. Multiplicaram-se as quedas dos copos de vidro. Outrora zelosa, não evitou que o ferro queimasse a camisa do filho. Nem se importou com o esbravejar do rapaz. Antes, era motivo de lágrimas pseudorresignadas; agora, o palavreado servia apenas para desentupir os ouvidos cansados. Até uma janela esqueceu aberta, fugindo do senso comum de muitos idosos. De notório, maquinava algo.

Acordou diferente na sexta-feira. Mais tarde. Bem depois do sol. Enfim, hoje, poria real o projeto. A casa só dela. Olhava amiúde no relógio. Para si, contentou-se em esquentar apenas um arroz com meio ovo mexido. Nada mais. Vez ou outra, consultava de rebarba na gaveta um papel colorido. Mais tarde, ela o colocou na frente do avental limpo. As horas custavam. Naquele dia, não estava incansável. Deixou-se aconchegar no sofá. Cochilou. Pulou cinco minutos depois, talvez seis.

Despudoradamente, tirou o papel do bolso. Pelo ritmo aumentado dos movimentos, o tempo parecia chegar. Sol escondido. Janela agora cerrada. Respirou fundo. Deu um passo rumo ao telefone. Respirou de novo, curto. Mais um passo. O descarado papel estava todo aberto agora. Procurou nele o círculo marcado de caneta falha quinze dias antes. Logo acima, outro sinal, sobre um número. Sentou-se ao lado do telefone. Aprendera a usar o aparelho aquelas semanas, vendo de longe os netos. Tirou do gancho. Respirou forte. Conferiu o rabisco. Discou. Silêncio. Espera. “Quem fala?” “Olá, senhora! A que devo a honra da novidade?” “Filho, faça o favor, mande para mim agora o sanduíche número sete e capriche no defumado.”

*faleimar@gmail.com

Roendo o osso










Eduardo Sigrist*

Todo domingo tem bisteca no boteco do Pereira. E tem pagode no boteco do Pereira. Mas eu não gosto desse tipo de batuque, então vou lá só pela bisteca, que na verdade é a mulher do Pereira quem faz. Carne deliciosa – a da bisteca, claro. Não perco uma semana. Como sem frescura, segurando o osso com a mão e me lambuzando. A mulher do Pereira, ao retirar o prato, todo domingo repete: “Roeu até o osso, hein, seu Eduardo!”

É gozada essa mania que certas pessoas têm de chamar você de doutor ou de senhor, mesmo quando somos mais novos. Sinal de respeito que não entendo. Lá no boteco, antes eu era só o Eduardo. Um dia o Pereira me perguntou o que eu fazia da vida. Respondi naturalmente: revisor. Revisor? O que faz isso? Expliquei que um revisor corrige os erros de português dos livros. E não é que, a partir desse dia, passei a ser o “seu” Eduardo? Fiquei importante porque trabalho com livros, mesmo sendo um mero peão em todo o processo editorial.

O Monteiro Lobato já disse que um país se faz com homens e livros. Talvez. Às vezes discordo disso, principalmente quando estou comendo a bisteca do boteco do Pereira, feita pela mulher do Pereira. Aí esqueço que existe o Baudelaire, aí rebaixo o Machado de Assis à categoria do mais reles mortal, por ele não ter provado a bisteca do boteco do Pereira. Bisteca com cerveja carrega mais recordações do que há em mil madeleines.

Assim passo uma parte do domingo: esquecido da política, esquecido do trabalho, esquecido dos problemas – problemas que, de uma maneira ou outra, sempre envolvem a política e o trabalho. Ouço as histórias dos bêbados, rio das piadas indecentes do Pereira e até consigo encontrar algum verso inspirado na voz dos pagodeiros. E dou cabo do meu almoço só para ouvir a mulher do Pereira dizer: “Roeu até o osso, hein, seu Eduardo!”

O boteco do Pereira fica ali pertinho do metrô Anhangabaú. É só perguntar que todo mundo conhece. O ponto é feio, mas a comida é caprichada. E tenho certeza de que você, se for até lá e experimentar a bisteca da mulher do Pereira, vai virar freguês. E vai roer o osso e se lambuzar. Mas eu garanto: quem come bisteca sabe que sempre fica uma lasquinha de carne em algum ponto da incomensurável imensidão do osso. Por mais que você se esforce, vai sobrar esse pedacinho, destinado ao lixo. E mesmo sobrando esse último e quase invisível naco de carne, a mulher do Pereira vai retirar o prato e dizer: “Roeu até o osso, hein, seu André, hein, doutor Gervásio, hein, dona Luciana!”

Foi o que aconteceu no Carnaval do ano passado. Os pagodeiros pela primeira vez não estavam por lá. Mas o Pereira, a mulher e a bisteca, sim. E eu também. E eu novamente pedi bisteca. E roí o osso. E deixei uma lasquinha de carne. E ouvi a mulher do Pereira dizer a frase habitual. E vi o osso indo pro lixo. E batuquei um samba na mesa. E pedi outra cerveja. E outra. E notei o bar se esvaziando. E vi o Pereira levando o lixo para fora. E vi o Pereira com cara de quem quer fechar o bar. E paguei a conta. E ouvi a mulher do Pereira dizendo: “Até domingo que vem, seu Eduardo”. E me vi meio zonzo caminhando pelo Vale do Anhangabaú.

Tudo deserto. Nesses dias, o povo ou foge de São Paulo ou está de ressaca assistindo à televisão. Sentei num dos bancos e fiquei vendo os poucos corajosos que passavam por ali: um cidadão com o filho e o cachorro, um motorista de ônibus voltando para casa, vários mendigos. Um deles, com uma camiseta preta rasgada, em que se via o símbolo da Nike, me pediu uma moeda. Apesar de minhas desculpas tão sinceras e, posso até dizer, tão pungentes, ele não acreditou que eu estivesse liso e saiu praguejando. Enrolei ainda uns minutinhos ali e resolvi ir embora, pois tinha ficado melancólico com o episódio.

Para chegar à minha casa, na Consolação, tenho que passar pela frente do boteco do Pereira. Já estava fechado, mas se via uma luz pelo vão da porta. Na frente, os sacos de lixo se amontoavam ao lado do poste. A princípio achei que, por ter exagerado na cerveja, estava tendo alucinações: o lixo se mexia. Depois, olhando com calma, notei um símbolo da Nike em meio à negritude de uma camiseta e de um rosto encardido. Na boca desse lixo ambulante, um osso de bisteca. O osso que eu havia rejeitado e que fora retirado pela mulher do Pereira e levado para fora pelo próprio Pereira dentro de um saco preto agora era devorado, degustado como se fora a mais suculenta refeição. O homem matava sua fome ancestral com a lasquinha de carne que eu não conseguira encontrar.

Uma voz interrompeu o banquete: “Some daqui, vagabundo”. Era a mulher do Pereira, carrancuda, pouco amigável. O mendigo não era um freguês, não merecia respeito nem uma palavra simpática, do tipo: “Roeu até o osso, hein, seu mendigo!” Ele não era senhor, doutor, revisor, escritor, dono de boteco, prefeito. Não era nem um homem com fome, não tinha estômago, não tinha dignidade. Era um arrombador de lixos, um vira-lata.

Atravessei a rua e fiz de conta que nem ouvi alguém me chamando: “Ainda por aqui, seu Eduardo?” Naquele momento eu não queria ser visto, não queria ser reconhecido como um ser humano. E pensei no Monteiro Lobato. Se é mesmo verdade que um país se faz com homens e livros, estamos todos fodidos, principalmente no que se refere aos homens. Homens que, quando precisam matar sua fome de poder e dinheiro, não pensam duas vezes em roer o osso do próprio vizinho.

*eduardosigrist@gmail.com